
A medicina oriental chinesa define, no corpo humano, um mapa de meridianos energéticos do qual se serve para fazer diagnósticos e tratamentos.
As casas também têm essas meridianos e os orientais criaram um método de tratamento das correntes energéticas dos espaços a que chamaram feng chui .
O meu pai, um homem habituado a lidar com a natureza, mais até do que com os seres humanos, alertou-me, à sua maneira. Conhecedor profundo, mas não assumido, das coisas inexplicáveis disse-me apenas que a retirada da madeira, que tapava a escadaria, iria provocar fortes correntes de ar.
Era verdade. Depois de aberta a passagem, todo o rés do chão da casa ficou envolvido numa corrente de ar, permanente e imparável.
Eu adivinhava mudanças trazidas por aquela corrente de ar, e era constantemente atraída para a entrada da escadaria, onde permanecia longos minutos numa mistura de êxtase místico e de decoradora furiosa, tentando resolver os problemas de iluminação e de recuperação do espaço recém conquistado.
Porque esteve encerrada durante longos anos, a escadaria estava danificada. Das paredes desbotadas pendiam grossas teias de aranha, como enfeites de natal cinzentos e empoeirados. O tecto, estava podre e alguns dos vidros da enorme janela, tapada por fora com uma grade de ferro, como nos conventos, estavam partidos.
À noite, sem iluminação, adivinhavam-se apenas os contornos do majestoso corrimão de pedra. Tudo o resto parecia uma espécie de buraco negro. Uma entrada para outra dimensão.